[RESENHA] O lar das crianças peculiares




Resenha por Julianna Costa

O mais curioso a respeito do livro escrito por Ransom Riggs – e consequentemente o roteiro do filme por ele inspirado – é como consegue ser igualmente simples e complexo.

Resumir a história é atividade que pode ser feita sem maiores problemas. No entanto, acompanha-la torna-se uma atividade delicada que deve ser feita com cuidado.

O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares conta a história de Jacob Portman e seu relacionamento com seu avô. Desde muito jovem, Jacob ouvia de seu avô as histórias maravilhosas – e inacreditáveis – sobre o orfanato em que cresceu durante a Segunda Guerra, quando sua família o enviou para fora da Polônia, sob o cuidado de estranhos, para que pudesse se salvar.

Com a maturidade, no entanto, veio a Jacob a compreensão de que as histórias de seu avô talvez não fossem tão reais assim, e que seriam, na verdade, apenas sua interpretação de fatos assustadores que viveu quando criança.

Mas, como o próprio Jacob deixa claro em sua narrativa, um evento é capaz de mudar tudo. E, para ele, esse evento é justamente a misteriosa morte de seu avô – definida pela polícia como acidente e ataque de animais – que o jovem protagonista tem dificuldade em aceitar.

Eis que ele parte em uma viagem para a ilha remota onde seu avô afirmou ter crescido, para tentar encontrar um pouco de paz e encerramento. Uma sequência de eventos simples até então, mas que se tornam fantásticos e surreais quando Jacob começa a investigar os mistérios que a ilha esconde.

Com uma caracterização interessante, o filme se conta através do estilo típico de Tim Burton. Tão típico que, em mais de uma cena, eu me peguei rindo e imaginando o quanto o diretor deve ter amado fazer uma ou outra cena em especial. Embora talvez, seja o filme de composição menos… “peculiar” de Burton. Ao contrário do sombrio-gourmet, ou do alegre-algodão-doce que ele sempre apresenta com maestria, O Orfanato da Srta. Peregrine tem um estilo quase “normal” se comparado a outros títulos inesquecíveis do diretor.

O elenco seria do tipo capaz de levar o espectador às lágrimas se não tivesse sido tão mal aproveitado entre cenas corridas, piadas desnecessariamente mantidas e desenvolvimento superficial.

Eu não sou fã incondicional da Eva Green, mas confesso que ela foi meu elemento favorito na história. Ao saber do filme, questionei, por alguns instantes, como seria assistir Bonham-Carter (aí sou fã incondicional) no papel da Srta. Peregrine, mas assim que Green assumiu a tela com suas roupas elegantes e seu sorriso matriarcal, minhas dúvidas se desfizeram. Green funciona e é uma pena que, ao resto do elenco, não tenha sobrado tempo para acompanha-la.

O que achei mais frustrante na narrativa, no entanto, foi como o roteiro decidiu se apressar em contar a investigação inicial de Jacob para leva-lo a ilha de uma vez.

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Eu sei que são ritmos diferentes, que um filme nunca pode ser igual a um livro e tudo isso… mas é sempre um pouco incômodo quando você precisa assistir um diretor desconsiderar o que você – enquanto leitor – considerou uma das partes mais importantes da história.

O relacionamento de Jake com seu avô e a consequente investigação que se inicia com o misterioso assassinato é uma parte riquíssima da história e que serve para criar o plano de fundo de antecipação e interesse na ilha, orfanato e tudo que ali se esconde. O filme, no entanto, prefere focar em uma narrativa sombria na sua primeira metade – digna de assustar crianças menores com algum empenho – e em uma aventura sessão da tarde, na sua metade final, abandonando os ares de mistério da história quase que completamente.

Essa velocidade com que problemas eram apresentados, e a facilidade com que eram resolvidos, me incomodou por boa parte da experiência.

Como em todas as adaptações, mudanças foram feitas, personagens foram excluídos e nós, leitores-espectadores nem sempre vamos concordar com o diretor ou uns com os outros. Então, quanto a esse ponto, para evitar spoilers, tudo que posso dizer é que não entendi o propósito por trás de uma das mudanças mais importantes. Não se preocupe: se você leu o livro, vai entender de que mudança estou falando assim que assistir o filme.

No entanto, houve uma mudança que eu recebi de bom grado.

Quando vi o filme, ainda estava na metade da leitura e ainda não tinha lido a apresentação da Bronwyn no livro.

No livro, ela é uma garota com uma super-força e, em sua apresentação, é descrita como uma garota rude e masculinizada, ao que se segue o comentário de algo como “ok, ela nem é tão bonita assim, mas é gente boa”.

Bem, não é segredo que eu não gosto desse tipo de caracterização. Acho extremamente desnecessário definir a aparência de uma mulher como algo relacionado ou não ao pacote de convenção social que lhe é atribuído quando nasce com uma vagina, e associar a divergência entre sexo biológico e aparência que é esperada da sociedade como ausência de beleza é algo extremamente problemático, na minha opinião.

O filme não seguiu por essa vertente e eu apreciei não precisar assistir comentários desse nível. Bronwyn é apresentada como uma garotinha minúscula em seu vestido de princesa… Acho que teria preferido a personagem “rude” como ela é, mas sem qualquer comentário associado a sua beleza, obrigada. No entanto, se é preciso escolher, nesse critério específico, fico com o filme.

A história é interessante para todas as idades, embora eu acredite que crianças menores definitivamente podem se assustar no primeiro terço do filme.

Como um todo, consegue ser visualmente atraente e gratificante. Fãs do livro não devem ir esperando algo revolucionário. Uma boa apresentação é feita, mas nada excepcional.

Visualmente interessante, mas com um compasso acelerado, O Orfanato da Srta. Peregrine – como filme – também permanece preso na dualidade entre o simples e o complexo de modo que, por ironia do destino, “peculiar” acaba sendo a melhor palavra para descrevê-lo.

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