Medo de hospital, medo de perder quem amamos.



Eu nunca gostei muito de hospitais. Na realidade, me pergunto quem gosta...  Só o cheiro, já me deixa um tanto agoniada. 

Quem me conhece um pouquinho que seja, sabe que meus avós são tudo para mim. E sabe como a saúde delicada de meu avô é uma pauta permanente no meu dia-a-dia. Com a sua última internação, em novembro do ano passado, o ritmo, não só da minha vida, mas de toda minha família mudou completamente. Dezembro chegou, assombrando e deixando mais dúvidas que certezas, mas também permitindo que pessoas incríveis se aproximassem. 

Foi por isso que estive afastada das redes sociais, do canal, do blog... Não é nem aquela coisa de que "a gente pode mostrar e aparecer quando está triste também" mas pelo fato de ser muita coisa para assimilar. Dezembro foi um mês esquisito, como já comentei, foi um mês que assombrou a todos que amam meu avô. Foi um mês muito ruim por diversos motivos. Um mês que além de tudo abriu meus olhos para algumas coisas das quais me chateei bastante. Existem milhares de ditados que são clichês e poderiam ser usados, mas mesmo que estivesse chateada, aquilo não era a prioridade.  E fica parecendo que mesmo internado, que meu avô mais uma vez me ajudou a seguir em frente. Sei que ele vai cuidar de mim para sempre. 

Hoje, dia 14 de janeiro, meu avô continua internado, e tem sido muito difícil que a cada novo dia, ele continue lá. Que a gente não tenha uma - mínima - perspectiva de quando ele vai sair de lá, ou, se teremos a chance de passar um pouco mais de tempo com ele, mesmo que seja no hospital. Internado em uma UTI, os horários e o tempo de visita são limitados. E isso, claro, é um tanto difícil de lidar. Por mais que a gente saiba que ele esteja sendo muito bem cuidado, é difícil.

Hoje também é o dia que meus avós comemoraram 63 anos de casados... 63 anos juntos.  

Isso obviamente não quer dizer que não tenho o que agradecer. Só o privilégio dele estar recebendo o melhor atendimento que temos na cidade é uma das coisas que agradeço todos os dias. Ver a minha avó sem vacilar um instante que seja... Admiro de verdade como meus avós são religiosos, como tem uma fé inabalável e como são gratos. O cuidado das equipes médicas, que diversas vezes tem sua paciência testada com tantas perguntas, os olhares e sorrisos de pessoas que jamais conheceria em momentos delicados...

De tanto ir e vir, de tanto me sentar nas recepções, no café, de conversar e procurar por médicos, enfermeiras, fazer perguntas para recepcionistas e dividir tomadas com outras pessoas, que o hospital - ao menos o que ele está internado - deixou de ser um lugar tão frio. 

Conheci muitas pessoas, muitas histórias, muitas famílias. Cheguei a rir com algumas histórias que estavam me contando, vi pessoas religiosas e pessoas que não tem nenhuma religião se dando força, mesmo sendo tão diferentes e nada intimas. E da mesma forma que fiquei feliz quando soube do progresso ou até mesmo a alta de alguns pacientes, também me vi triste quando soube da morte de outros. 

A empatia é tão real...Vi minha avó ser abraçada, elogiada diversas vezes e sei como o carinho, o afago e as palavras que ela vem recebendo, são sinceras, mesmo que de pessoas que nunca chegaram a conversar de fato com ela. 

Todas as pessoas que estão naquela recepção vivem as mesmas incertezas, os mesmos medos... tem as mesmas esperanças. E sou grata por ter proporcionado conforto ou por ter sido confortada por alguma delas. 

Por mais que a nossa educação, de modo geral, não nos prepare para lidar com a morte, com a perda, e por mais que a gente nunca supere de verdade, apenas aprenda a conviver com a falta que pessoas que amamos nos fazem... é preciso agradecer o tanto que aprendemos com elas.

É preciso perceber que mesmo nos momentos muito ruins, podemos tirar coisas boas. E que mesmo que o cheiro do hospital continue não me agradando, que ele não é mais um lugar tão frio pra mim. E que por mais que ele seja um lugar que muito me amedronta, sou grata por poder aprender tanto, e, sem duvida nenhuma, por poder compreender cada vez mais que quando é reciproco, seja o que for, que aí sim, é real.

Talvez esse post não faça sentido para muita gente, mas talvez esse post ajude alguém, assim como alguns posts e vídeos de diversas pessoas tem me ajudado. E, verdade seja dita, eu gostaria muito de poder dividir tudo o que venho aprendendo com ele. Talvez, quem sabe, eu tenha essa chance. Mas, caso eu não consiga, ao menos estou levando a sério um pedido dele. Estou compartilhando minhas palavras, minhas histórias, independente do formato, com outras pessoas...

"Porque amor é justamente isso, é ficar inseguro, é ter aquele medo de perder a pessoa todo dia, é ter medo de se perder todo dia. É você se ver mergulhado, enredado, em algo que você não tem mais controle."


3 comentários:

  1. SÓ LÁGRIMAS com esse post lindo.
    E só uma palavra resume os seus avós: AMOR.
    Porque mesmo não os conhecendo, só no que suas palavras dizem, percebemos que são 63 anos de amor e para sempre é apenas o começo.
    Força Mii! <3

    ResponderExcluir
  2. Nossa Mi, esse trecho em especial me impactou demais:

    "Por mais que a nossa educação, de modo geral, não nos prepare para lidar com a morte, com a perda, e por mais que a gente nunca supere de verdade, apenas aprenda a conviver com a falta que pessoas que amamos nos fazem... é preciso agradecer o tanto que aprendemos com elas."

    Compartilho com você esse medo de hospital exatamente pela incerteza se aquela pessoa amada vai realmente voltar <\3

    Li o texto com lágrimas nos olhos, com o coração pequetitinho.

    Que os seus avós consigam viver mais anos juntos!

    Eu sei a importância deles na sua vida, na formação dessa mulher que está realizando seus sonhos depois de muitas etapas.

    E te desejo muito mais força para você e seus familiares nessa situação toda!

    <3

    ResponderExcluir
  3. Suas palavras me fizeram chorar, mas confortaram meu coração é muito saber que você está bem na medida do possível e que tudo está se encaminhando de novo mesmo que de forma lenta. Com toda certeza são 63 anos de muito amor e aprendizado. Tudo que eles passaram pra ti, você deixa onde passa tenha certeza disso.

    Aprendi tanta coisa contigo no ano passado que nem sei onde enfiar tanta gratidão! Muita força, amor e paz pra ti e toda sua família! ♥

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.