A academia que odeia mulheres e finge aceitar diversidade e minorias.


Tem quem diga por aí que o mundo tá muito chato. Concordo plenamente. Tá chato viver de uma forma tão errada por tanto tempo. 

Em pelo ano de 2017, somos obrigadas a ver homens que cometem crimes ganhando prêmios e sendo prestigiados. Em pelo ano de 2017, precisamos fingir que diversidade significa que minorias também merecem ter seu trabalho reconhecido. Como se além de nossa sociedade não ter um débito sério, que essa minoria branca e extremamente privilegiada está salvando o dia apenas por finalmente reconhecer seu valor. 



Eu amo assistir a cerimônia do Oscar desde criança. Acompanhar o red carpet, fazer a minha própria lista de quem ganharia cada categoria, além da torcida pelos meus favoritos. Todos os anos, sempre tento assistir o máximo de filmes e documentários que foram selecionados para concorrer a um dos maiores prêmios do mundo. Mas é claro que também aprendi muito ao longo desses últimos anos.  O Oscar não é injusto por premiar os filmes que eu imaginava que não mereciam, mas sim injusto pro premiar praticamente o tempo todo, só um tipo de pessoas.

Todo aquele glamour acaba escondendo a sujeira, ano após ano. A grande diferença é que as pessoas estão despertando e compreendendo que o ritmo da ragatanga que eles tocam está ultrapassada. 



A premiação de ontem muito agridoce justamente por seguir um roteiro, que, no final das contas acabou funcionando muito bem. Por ser branca e compreender meu privilegio, não vou me aprofundar sobre o racismo presente na academia. Basta deixar a minha provocação: Com 89 edições, quantos brancos ganharam prêmios? Quantos profissionais do mercado de outras etnias tiveram a oportunidade de ganhar os mesmos prêmios? Fácil de matar essa charada, não é mesmo? 

Já como mulher, posso muito bem falar de dois assuntos que muito me incomodam: criminosos sendo glorificados e ganhando prêmios. Homens dominando o quadro de indicados. Somente em 2010 tivemos uma diretora ganhando a estatueta de melhor diretora e de melhor filme. Somente na 82 edição do prêmio!!! 




Faltam boas diretoras? Boas roteiristas? Boas editoras? Não! Faltam oportunidades para que as mulheres possam ter seu trabalho reconhecido. Mesmo as mulheres brancas, de famílias ligadas a industria e com sobrenomes prestigiados tem problemas para conseguir produzir seus filmes, imaginem a nova gama de diretoras que surge a cada ano ao redor do mundo? 

E falando de criminosos enaltecidos, confesso que até pouco mais de um mês eu não tinha conhecimento do caso de Casey Affleck. Dono de seríssimas e pesadíssimas acusações de assedio por mais de uma mulher que teve o desprazer de trabalhar com ele, seu escândalo foi abafado. Sua assessoria faz questão de dizer que os casos estão encerrados e que ambas as partes estão super satisfeitas com a forma como tudo se resolveu. Piada, né? 



O mais triste é ver que se um homem comete um crime, especialmente se contra uma mulher, dificilmente isso vai marcar a sua vida. Se ele for branco, pior ainda. E se for o combo branco, influente, rico e boa pinta, já sabemos que vão tentar mostrar como ele é bom moço e que tudo isso não passam de ruídos - ruídos inclusive foi um termo usado por Casey no Globo de Ouro!! - e pessoas tentam pregar que não devemos confundir a vida pessoal de um homem com sua vida profissional. 



Afinal o coitadinho cometeu um erro, mas já está tudo bem. 

Foi humilhante ver ele ganhando o prêmio. Ver ele segurando aquela estatueta só prova como está tudo errado. E mais delicado ainda foi assistir a agressão a Brie Larson, entregando pela segunda vez o prêmio de melhor ator para ele. A atriz que além de ser ativista contra assedio e violência contra mulheres, conquistou seu Oscar de melhor atriz interpretando uma vitima de estupro e carcere privado, abuso físico e psicológico. Tanto no Globo de Ouro quanto no Oscar, ela quem anunciou o ganhador, ela quem teve que passar o prêmio para ele. De maneira profissional ela cumpriu com seu dever, mas em momento algum fingiu estar feliz pela conquista dele. 

Acredito sim que os prêmios de Viola Davis e Mahershala Ali foram mais que merecidos. Torci demais pelos dois e o discurso de ambos foi incrível! Viola sempre sabe usar muitíssimo bem suas palavras. Sempre um belo tapa com luva de pelica. Da mesma forma acredito que Moonlight também tenha merecido a estatueta de melhor filme e melhor roteiro adaptado por apresentar questões tão delicadas e importantes. Mas não consigo acreditar que a academia está pronta para realmente abrir os braços para a diversidade, uma vez que jogam tudo isso fora premiando alguém como Casey Affleck.

Na verdade, demonstram quem realmente são e como planejaram um roteiro redondinho para que uma parte de seus espectadores acreditassem que eles estão prontos para mudar. Muita gente tenta justificar esse excesso de closes errados apenas pela premiação do Oscar não ser algo realmente sério. Mas o Oscar também tem função social e permite que muitas pessoas se aproximem ainda mais da sétima arte, não importa se em formato entretenimento ou de crítica...

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