[RESENHA] Filhos de Sangue e Osso, Tomi Adeyemi


Sinopse: Zélie Adebola se lembra de quando o solo de Orïsha vibrava com a magia. Queimadores geravam chamas. Mareadores formavam ondas, e a mãe de Zélie, ceifadora, invocava almas. Mas tudo mudou quando a magia desapareceu. Por ordens de um rei cruel, os maji viraram alvo e foram mortos, deixando Zélie sem a mãe e as pessoas sem esperança. Agora Zélie tem uma chance de trazer a magia de volta e atacar a monarquia. 

Com a ajuda de uma princesa fugitiva, Zélie deve despistar e se livrar do príncipe, que está determinado a erradicar a magia de uma vez por todas. O perigo espreita em Orïsha, onde leopanários-das-neves rondam e espíritos vingativos aguardam nas águas. Apesar disso, a maior ameaça para Zélie pode ser ela mesma, enquanto se esforça para controlar seus poderes — e seu coração.

Filhos de Sangue e Osso é o primeiro livro da trilogia de fantasia baseada na cultura iorubá O Legado de Orïsha está sendo adaptado para o cinema.


Filhos de Sangue e Osso é um dos livros que eu estava mais ansiosa para ler. Primeiro por finalmente ser um livro de fantasia que realmente chamou minha atenção - ando bem desapegada do gênero, para ser sincera - e o fato de ser uma história com personagens negros, PROTAGONISMO NEGRO e escrito por uma AUTORA, só completam o combo do tenho que ler. 

Eu ando falhando com minhas metas literárias, mas gosto delas justamente por ser uma forma de pegar no meu próprio pé para ler coisas diferentes, ou incluir leituras que de repente jamais seriam minha primeira escolha. Para 2019, sem duvida alguma eu quero muito ler livros escritos e protagonizados por personagens negros. Até cheguei a conversar com algumas pessoas sobre o livro e sobre a sua importância, e escutei muito que se não fosse pela representatividade, ele nem seria esse destaque todo. Até entendo que estruturalmente ele é mais um livro do gênero de fantasia YA, mas isso não TIRA, nem fica devendo em sua importância. Fora que, no final, pensando bem, principalmente depois que eu li, percebi como isso acaba sendo um discurso para desmerecer o livro. Conversei com algumas amigas negras e se elas acham que esse tipo de discurso é sim errado e bastante racista, quem sou para questionar? Isso só torna o livro mais especial; ele gera debate em diferentes escalas. 

O livro é super bem escrito, tiro meu chapéu para o trabalho da autora tanto pela criação do universo, personagens e seus arcos, como de pesquisa  e de como ela implementa a cultura Iorubá na história. Alguns trechos são belissimos de bem escritos.  Outro ponto alto é que temos mais de um ponto de vista e você consegue sentir a diferença entre cada pov. E os elementos políticos e sociais também são bem desenvolvidos. Tipo, parece ser coisa demais para um livro só, ainda mais sendo ele o primeiro de uma trilogia, mas ela ousa e segue de boas. A autora fez um bom trabalho, deixando tudo muito bem desenhado para o que vem a seguir, no segundo livro, que será lançado no final de 2019 nos EUA. 

Sobre a história em si, Zélie é uma garota que está marcada não só por ser parte da população marginalizada, mas pela perda de sua mãe. Ela é uma garota divinal, e todos os divinais tem que pagar impostos elevadíssimos e são considerados os inferiores. A magia não pode mais existir, o rei é um tirano e encontrou no banimento da magia, sua solução para dominar a população e dividir as classes de seu povo. Mas é justamente com a filha desse homem tirano que Zélie esbarra, literalmente. Amari aparenta ser só alguém que está precisando de ajuda para fugir, poderia ser apenas mais uma representação de princesa em apuros, mas é muito mais que isso. Ela compreende o tamanho de sua responsabilidade e aos poucos vai se transformando uma guerreira. Apesar de com Zélie também ser assim - a cada novo capítulo a personagem só cresce - a autora nos lembra das essências diferentes de cada uma delas. 

Zélie já está acostumada a se virar e a conviver com o lado duro da vida. Seu crescimento é belíssimo e sinceramente, o mais importante na trama. Não quero dar Spoilers, masa forma como a autora trabalha até as questões estéticas/físicas são muito boas. Fico pensando em todas as meninas mais novas lendo e se identificando com a questão que envolve a estética da personagem. 

O relacionamento entre essas duas garotas é o que existe de mais fantástico do livro. Como elas vão crescendo e evoluindo, individualmente, porém juntas. Temos outro personagem em destaque na história, mas esse não me despertou muito minha atenção, que é Inam. Ele é importante para a trama e para a os acontecimentos desse primeiro livro, mas as meninas me conquistaram por completo.

Por não conhecer praticamente nada sobre a cultura Iorubá, o livro se tornou uma experiencia ainda mais bacana. Finalmente algo diferente do que tanto vemos por aí.  E como diabos temos uma cultura tão forte, mas só estou lendo uma aventura/fantasia com essa temática pela primeira vez, agora? Com toda certeza esse não é o único livro, e com toda certeza, aposto que temos produções nacionais tão boas quanto, esperando uma boa chance para serem lidas.

Filhos de Sangue o Osso foi um dos livros aclamados de 2018, e olha, faz todo sentido. O único problema é que ele é uma trilogia e ainda vai demorar um pouco para ser concluída, consequentemente, para ser publicada aqui no Brasil.  

  

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